domingo, 1 de junho de 2025

Cuidados Paliativos e Luto: Um Olhar Afetivo Sobre a Vida e a Morte

 Desde que assisti a uma reportagem sobre uma clínica de cuidados paliativos, algo em mim despertou. Era como se aquele lugar falasse diretamente ao meu coração, como se dissesse: “é aqui que você vai fazer a diferença.” E desde então, venho me aprofundando cada vez mais nesse universo que une a dor, o cuidado, o acolhimento e a presença.

Os cuidados paliativos são muito mais do que um conjunto de práticas para aliviar a dor física. Eles representam um jeito de cuidar que respeita a vida até o último instante, que valoriza o ser humano em sua totalidade (corpo, mente, emoções e espiritualidade). É sobre estar junto, ouvir, acolher e permitir que a pessoa seja quem é, mesmo diante da finitude.

Como futura psicóloga, me vejo nesse espaço. Sinto que é ali, diante da vulnerabilidade extrema, que as relações mais verdadeiras acontecem. Talvez porque a morte sempre tenha me atravessado de forma intensa. Desde pequena, tenho uma relação curiosa com ela. Meu psicólogo costumava dizer que eu “flerto com a morte”  e talvez ele tenha razão. Sempre fui atraída por conteúdos que falam sobre perdas, crimes, despedidas… não por um fascínio mórbido, mas por uma necessidade quase visceral de entender o que se passa no coração de quem fica.

Tenho medo que algo aconteça com a minha família, e ainda assim me vejo assistindo aos relatos de vítimas, sentindo com elas. Não é fácil explicar. Mas, de algum modo, esse mergulho nas dores dos outros me conecta àquilo que é mais humano em mim.

Falar sobre luto é, para mim, falar sobre amor. Porque só sofre quem amou. E só cuida quem se importa de verdade.

Talvez por isso os cuidados paliativos me toquem tanto. Porque eles não negam a morte, eles a acolhem com respeito, dignidade e compaixão. E, ao fazer isso, exaltam a vida como ela merece ser vivida: com presença, escuta, e carinho.

No ano passado, esse mesmo terapeuta, me emprestou a biografia de Elisabeth Kübler-Ross, "A Roda da Vida: Memórias do Viver e do Morrer". Esse livro foi como encontrar uma guia nessa jornada que escolhi trilhar. Ela abriu caminhos que antes pareciam impensáveis: sentou-se ao lado de quem estava morrendo, ouviu, respeitou, e deu voz a essas pessoas, quando ninguém mais o fazia. Ela mostrou que a morte não é o fim, mas parte do ciclo da vida, e que o sofrimento pode ser acolhido com dignidade e amor.

É exatamente aí que o papel do psicólogo nos cuidados paliativos se torna tão essencial.

Mais do que tratar sintomas ou aplicar técnicas, o psicólogo é aquele que segura a dor junto com o outro. Que acolhe as angústias do paciente e da família, escuta os silêncios, reconhece os medos sem prometer que vai passar, mas garantindo que eles não serão enfrentados sozinhos.

Nos cuidados paliativos, a escuta é um gesto de amor. A presença é uma forma de cuidado. Muitas vezes, não há mais o que "curar" no sentido biomédico. Mas ainda há muito o que cuidar: da história de vida, dos vínculos, das pendências emocionais, da espiritualidade, das memórias.

Como psicóloga em formação, entendo cada vez mais que o nosso papel não é "resolver" a dor da perda, mas acolher a dor do existir. É criar um espaço seguro onde o paciente possa falar sobre a morte sem ser interrompido com otimismo forçado. Onde a família possa chorar sem ser pressionada a ser forte o tempo todo. Onde o amor e o medo possam coexistir.

A morte me atravessa, sim. Mas é por isso mesmo que escolho estar perto dela com cuidado e presença. Porque só quem aceita a finitude consegue valorizar verdadeiramente a vida.

Elisabeth me ensinou isso. E eu quero, com todo o meu coração, fazer parte dessa rede de profissionais que honram a vida até o último suspiro, não com heroísmo, mas com humanidade.

                        


Um comentário:

  1. Gostei demais da nossa conversa pós-aula sobre esse assunto. Antes de você falar na aula, eu jamais teria imaginado que esse é um tema que te interessa tanto. Fiquei muito feliz com essa tua sensibilidade, sabe? A Psicologia precisa cada vez mais de pessoas que olhem para o que as outras consideram "difícil demais". Segue nisso!

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